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O Mundo num segundo

  
  

Para a Bolívia fui fazer voluntariado nas minhas férias, durante um mês e uma semana que foi o tempo que consegui de férias em 2004. Depois de ter feito missão em Moçambique e S. Tomé e Príncipe compreendi que estava ainda no início da minha caminhada pela Saúde Pública, era hora de experimentar dar uns passos sozinha, não fui por isso através de nenhuma ONG. Tinha o contacto de um escuteiro local conhecido de uma amiga minha que lá tinha estado num intercâmbio de escuteiros e pedi-lhe ajuda. Disse-lhe o tempo que tinha disponível e perguntei-lhe onde poderia ser mais útil com a minha formação e ele apresentou na direcção do Hospital Materno Infantil German Urquidi que fica em Cochabamba o meu curriculum e escolheram-me para o serviço de pediatria queimados. Visto que tinha formação na área do socorrismo da parte dos escuteiros convidaram-me também para preparar e dar um curso de socorrismo para Dirigentes da região, experiência que também foi interessantíssima. Por um lado tive de aprender Castelhano, por outro conheci crianças maravilhosas, trabalhava das 7h30 às 12h e das 14h às 18h, exercia funções variadas, quer como animadora, quer como enfermeira diferenciada, quer como ajudante de enfermagem. Aprendi algumas técnicas novas de aproveitamento de recursos e sobretudo, o que é passar por processos tão dolorosos, com uma coragem infinita, com escassos bens e poucas ambições e uma vontade enorme de viver. O curso de socorrismo foi um grande desafio pois em nenhum local nos emprestaram material, nem manequins para fazer demonstrações, tivemos de improvisar tudo utilizando os recursos existentes. Vieram dirigentes de diferentes comunidades para assistir ao curso, no final ficaram responsáveis de formar os seus elementos. Apaixonei-me de tal forma pela Bolívia que decidi realizar lá minha tese de mestrado, voltando lá em 2007. Fui recebida como se de uma irmã me tratasse. Encontrei pessoas que apesar das condições em que vivem¹ continuam a sorrir e não se importam de comer pouco por dia, encontrei muita organização e espírito de cooperação por parte dos escuteiros da região. É impressionante o sentido cívico deles tão superior ao nosso. Os questionários para a minha tese foram aplicados pelos escuteiros locais, cujo tema era o Conhecimento Materno sobre prevenção e tratamento da diarreia e desidratação (para nós parece algo banal, mas num país em vias de desenvolvimento, como é o caso, é a segunda ou terceira causa de mortalidade infantil²). Aplicaram-nos a 177 mães e o objectivo é que as continuem a acompanhar durante três anos, de uma forma sistemática, em agrupamento, através de jogos educativos com as crianças e momentos de educação para a saúde com as mães, de forma a colmatar as lacunas de conhecimento. Tudo isso executam de forma voluntária, com grandes dificuldades económicas. As comunidades que acompanham são para alguns agrupamentos muito distantes do local em que habitam. Através da internet mantemos o contacto e vou recebendo o feedback de como decorre o projecto “Salvemos vidas”.

Com tudo isto aprendi que todos os sonhos são possíveis, só temos de lutar por eles. Senti que não há nenhum ponto do globo onde não seja possível chegar, a língua e diferenças culturais não são verdadeiras barreiras, desde que haja vontade de Ser com os outros. Desde que a postura seja de humildade e tentemos compreender os outros podemos sempre aprender muito e dar algo de nós, nunca é muito, mas o importante é tentarmos dar sempre o melhor, onde quer que nos encontremos, em cada segundo!

kity

  

¹ A Bolívia está permanentemente à beira de uma guerra civil e é um dos países mais pobres da América Latina. A sua população está frequentemente sujeita às cheias e outras alterações climáticas.
² Uma em cada quatro crianças com menos de 5 anos morre na Bolívia por desidratação causada por diarreia.

  
   
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