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Viajar

  
  

Certo dia, estava a contar as aventuras de uma viagem que tinha feito ao longínquo Nordkapp quando a minha ouvinte exclama: "esta geração sente uma enorme nostalgia de aventura!".

Na altura pouco liguei a esta afirmação, mas efectivamente a maioria de nós vive em razoável equilíbrio, com as necessidades básicas asseguradas. A sociedade impõe-nos um pacote de preconceitos e oferece-nos uma estrutura social escrupulosamente organizada, o que não nos dá grande margem para voos aventureiros ou actos heróicos. De facto, longe da luta pela sobrevivência dos nossos ancestrais antepassados e das lutas políticas e estudantis dos anos 70, temos de procurar outras aventuras, outras formas de conseguir a viciante e amada adrenalina!

Para uns são os desportos radicais, para outros, as motos, os carros, a pesca, a noite, a dança, e até, pasmem-se... o trabalho.

Quanto a mim, o que me desafia e dá adrenalina (daquela tipo long drink e não em shot) são as viagens.

Mas viajar não é, para mim, atravessar o mundo e ir enterrar a cabeça na areia de uma qualquer estância "exótica" de luxo. Viajar, como apreciar um bom tinto, implica escolher, cheirar, beber, saborear, deixar que se difunda em nós e, por fim, assimilar o que interessa e eliminar o que não. Novamente como um bom vinho, viajar, por vezes, sabe bem só porque sim. Mas na maioria dos casos deve ser tido como complemento de algo.

De facto, sempre que fui de férias só por ir de férias, não consegui a completa catarse do cansaço e problemas do ano. Assim, durante o ano, procuro desenvolver um projecto para executar nas férias.

Normalmente em conjunto, com um grupo de amigos, escolhemos um objectivo, estudamos a sua viabilidade e depois deliciamo-nos com os preparativos. Os desafios são tantos que durante o mês de férias nem muito ao longe me passam pela cabeça os problemas do trabalho, da família ou da universidade!

Claro que também me sabe bem o dolce faire niente, mas para isso não é preciso ir para o outro lado do mundo. Acreditem! Em Portugal, somos muito bons nessa arte. Basta um fim-de-semana sem stress, junto ao mar, com um bom livro e já está!

Já para férias "a sério", ajudar a restaurar templos budistas na Mongólia, contribuir para a preservação de uma barreira de recife, ou atravessar o Sahara numa complicada missão logística para entregar medicamentos no Senegal são interessantes exemplos de actividades que se podem desenvolver.

Com base na minha curta experiência, descobri que vivemos muito de estereótipos, de preconceitos e de mitos impostos pela comunicação social. O mais assustador é que apesar de cada vez viajarmos mais, pouco aprendemos sobre os locais para onde vamos. Limitamo-nos – como dizia Miguel de Sousa Tavares – aos programas de alegria programada e felicidade comprada a prestações onde só vemos o que nos querem "vender" e, no fundo, não aprendemos nada sobre as comunidades locais, a sua cultura, os seus problemas... Até a economia local é pouco estimulada pois o grosso dos lucros vai para as estâncias de luxo de grandes grupos financeiros.

A alternativa, baptizada por outros povos – talvez mais conscientes – de turismo responsável baseia-se em oferecer algum do nosso tempo e talentos contribuindo para o desenvolvimento de um projecto social, cultural ou ecológico num país com poucos recursos. Esta abordagem é também muito enriquecedora para o turista que assim ingressa efectivamente numa comunidade, apreende o lugar, a sua cultura e as suas gentes.

Estas experiências mudam o modo como vemos o mundo e levam por vezes a importantes descobertas sobre nós próprios. O que experimentamos e aprendemos fica imiscuído em nós, influenciando o modo como vivemos, pensamos, sentimos… em sentido mais lato, altera a nossa filosofia de vida!

Quanto mais pessoas interiorizarem o verdadeiro significado da palavra "viajar", mais assinaláveis poderão ser os resultados das viagens. Os interessados poderão utilizar o potencial da Internet para procurar mais sobre o assunto.

Renato Braz
renato.braz@gmail.com

  
   
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